2 de março de 2014

          A viagem –
      a palavra surge de maneira brusca na primeira vez em que é proferida e de maneira apagada nas vezes posteriores. De que viagem, Artaud, você falou então, está falando agora e estará sempre falando? quero lhe fazer essa pergunta mas me calo porque os olhos dele, nesse momento, deixaram de me fitar mais, estão de novo absortos no ato de olhar sem objeto a ser visto (caso eles buscassem um objeto, seria o vazio do universo); diante de mim, apenas o corpo vestido de negro, esguio e de braços caídos. Os traços do seu rosto, esculpidos a cinzel, são os de uma estátua angulosa e em bronze, erguida num calçadão à beira mar mirando um impossível horizonte, ou se confundem eles com o perfil de uma igrejinha caiada de branco e retangular, cravada por pescadores no ponto mais alto de uma pequena ilha que fica no meio dos oceanos, a brilhar que nem farol em noite de tormenta. Naquele momento todas as forças vitais dele se preparavam para deixar que o seu íntimo funcionasse como um feixe de luzes que assombrasse as hospedarias de quartos escuros e renegados pela razão. Então, uma palavra abstrata e de sentido concreto como viagem podia ser, na fala ensimesmada dele, um súbito e repentino clarão no céu atormentado de uma paisagem humana tomada pelo furor dos ventos desencadeados. A palavra viagem saltou definitivamente para o meio da nossa conversa e foi pronunciada com a mesma força e ênfase de um matemático que, diante de um impasse na equação que pretende demonstrar para um colega, diz para si: Raiz quadrada, como se estivesse pretendendo apenas ganhar um ponto de apoio para evitar o fiasco diante do ouvinte –
          se confunde com a experiência de se adentrar no meio da tarde numa sala de cinema do Quartier Latin para assistir a um filme mudo – eis o que Artaud me diz, e continua: Minutos mais tarde, sonolento, saio do túnel escuro do nada por onde me adentrei, sem me lembrar nitidamente de um e de outro detalhe do filmem que tinha no entanto fixado com os olhos. Sem memória ativa das imagens, mesmo assim, consigo comprimir todo o tempo e todo o espaço da minha experiência de espectador num único e compacto volume em que as diversas e consecutivas e incansáveis aventuras do filme se encontram indiferenciadas no monte desorganizado e funesto da sua própria morte.

(Viagem ao México, Silviano Santiago)