12 de janeiro de 2014

"Um reboliço de crianças junto ao portão da escola anunciou ao psiquiatra o fim das aulas: o mendigo remexeu-se, zangado, na sua manta:

- Sacanas dos putos roubam-me mais do que me dão.

E o médico ponderou se essa frase irritada não conteria em si os germes de uma verdade universal, o que o levou a olhar para o seu sócio com um respeito novo: Rembrandt, por exemplo, não acabou muito mais próspero, e não se está livre de encontrar um Pascal no cobrador da água: Antonio Aleixo vendia cautelas, Camões escrevia cartas na rua para os que não sabiam ler, Gomes Leal compunha alexandrinos no papel selado do notário onde trabalhava. Dezenas de prémios Nobel em blue-jeans desafiam a polícia nas manifestações maoístas: nesta época estranha a inteligência parece estúpida e a estupidez inteligente, e torna-se salutar desconfiar de ambas por questão de prudência, tal como, em garoto, o aconselhavam a afastar-se dos senhores excessivamente amáveis que abordam os meninos na cerca dos liceus com um brilho estranho nos óculos. "

(Memória de elefante, António Lobo Antunes)