26 de janeiro de 2014

“[...] ai Maria, penso que é tua a casa onde sangue se via, mulher e cadela há de morrer e parir
cala-te puta estufada e velha
molestosa a verdade, Matamoros, mas nascida nos sarçais da terra, cilhada com correntes de fogo, que Simeona seja incendiada e a boca negra nunca mais apresente palavra se é para te pôr medo que escarro estes negrumes, tens que largar o homem, varrê-lo da casa e da cabeça, é sombra encorpada, é vento de carne, é nada feito homem, no instante em que te digo estas palavras ele já é semente, já é larva no coração de outras mulheres
(Pensei semente sim no coração de Haiága)
larva muito perfurante no coração de todas
de quem?
todas que o enxergam, Maria, hão de querê-lo bem.
de querência fraterna não me importo
e quem há de ser fraterno com o corpo de um deus?”

(Matamoros, Hilda Hilst)