9 de dezembro de 2013

Impressões sobre Salvar os pássaros de Luiz Felipe Leprevost

A abertura de Salvar os pássaros, livro de Luiz Felipe Leprevost recentemente lançado pela Encrenca, nova e promissora editora de Curitiba, serve como uma espécie de prólogo aos textos (prefiro chama-los texto a contos) que compõem a obra. Em mãos, o autor já impõe seu estilo bastante característico, tanto na forma de construção quanto na temática, para fazer uma carta de apresentação e uma espécie de justificativa para o livro: “alguém com uma pata de toupeira no lugar da mão [...] decepá-la seria, de fato, uma solução. mas sabe, teve o dia em que compus uma redação que contava a estória do meu amor”.

Estamos, portanto, prestes a adentrar uma série de universos desviantes (não seriam estórias de amor se não fossem desviantes) apresentados por seres que se expõem na medida em que expressam suas perspectivas de mundo. Na verdade, nos textos escritos com patas e, em alguns casos, patadas, o esforço dos personagens é enquadrar o mundo às suas perspectivas. Muito embora pareça um mero jogo de palavras, essa espécie de raison d’etre da galeria de personagens é base que justifica e sustenta os discursos sinuosos, truncados e por vezes herméticos dos personagens em seus fluxos quase ininterruptos que compõem Salvar os pássaros.

“só há automatismo fora deste lugar literatura”

Imbuídos desse objetivo que canaliza todas as suas forças e intenções, o texto notas para um livro bonito 1 recoloca e aprofunda a premissa que mobiliza os personagens: se existe um mundo burocrático e pautado pelo automatismo de tal forma que os animaliza a ponto de se identificarem como “monstro pesado que vai se enterrar abaixo da linha dos humilhados” na “cidade-cárcere”, é justamente a partir desse mundo que se propõem a encontrar a matéria-prima para travarem batalha no “lugar literatura” que os possibilita liberdade:

“o que é a síntese diante de um mundo de contradições, catastrófico, fraturado, abundante? é possível o ordenamento de algo com esmero numa sequencia de frases, páginas? e o extraordinário só se olho muito e atentamente o ordinário. talvez contribuições ínfimas, mas é tudo o que alguns. sempre fragmentos porosos (nada está inteiro) da oficina do fazer. e os textos são sem data e hora que especifiquem ou clareiem o que já não se dá para apalpar: formas, vozes e as coisas que não dependem de mim. mas eu sabe-las, ao meu modo, faz que sim. o acontecer acontece o tempo todo” (notas para um livro bonito 1).

Dessa maneira, vivemos a liberdade de personagens que se deixam ao fluxo errante de suas verdades no esforço de moldarem e adaptarem o mundo aos seus entendimentos, vontades e desejos. Em última instância, para realização desse objetivo, a estratégia pretende a destruição de certas verdades explicativas como burocracia, capitalismo e outros (não incluo nessa lista o ‘amor’, pois, apesar de ser tratado na chave do açoite causado pela frustração em total declaração de amor, destruí-lo não é a intenção).

Resulta desse embate uma realidade particular, quase animalesca e liricamente violenta que, por vezes, deixa perplexos até mesmo os personagens. Mesmo assim eles se entregam aos mundos que criam e vivem, deixando-se ao sabor dos eventos sobre os quais não têm controle – e sequer têm a intenção de tê-lo – para empreenderem suas lutas. Entretanto, o saldo geral do combate é inglório e não raramente vemos a decadência dos personagens. O epílogo é [a mão que chora], que retoma a intenção suspensa do texto de abertura para encerrar o livro com a execução metafórica da esperança resultante da redação sobre uma estória de amor justamente sobre o caderno no qual foi escrita:

“pobre mão. aplico a anestesia, ela corre para o lado direito do meu corpo. com a esquerda, a morta canhota que nunca falou, a canhota inábil, seguro firme a machadinha. respiro fundo. minha testa pinga. a camisa está molhada. a canhota é a única que não titubeia. é agora! NÃO, grita a mão selvagem, apavorada. o golpe certeiro. o barulho de veias, ossos e cartilagens, plástico que se partisse. o sangue, terracota, ensopa a página amarela do caderno aberto” ([a mão que chora]).

Algumas vezes patas demais

Para dar conta da demanda dos personagens e suas realidades distorcidas, a construção estilística dos textos são basicamente fluxos verborrágicos, timidamente pontuados e marcados por inúmeras associações e imagens, que algumas vezes são quase cifradas. Além disso, a estratégia de destruição de certas verdades a qual me referi acima passa pela destruição de recursos narrativos como a pontuação, os discursos lineares, o desenrolar dramático de eventos etc.


Ao mesmo tempo em que essa opção estética que perpassa todos os textos reforça a intenção dos personagens, ela cobra um preço: o hermetismo. Salvar os pássaros é uma leitura densa e exigente e são raros os momentos em que Luiz Felipe Leprevost cede ao leitor, oferecendo poucas chaves à leitura. É uma aposta do autor, pois tal construção exige paciência do leitor em trechos de breu e confusão, sem pistas do que está acontecendo, uma vez que os enredos (em alguns casos sequer existem) são tênues e marcados por elipses temporais.


A questão é: isso prejudica o livro? Não necessariamente. Fato é que um escritor deve ser fiel ao que se propõe sem mensurar sua régua por um (suposto) público. A sensação é que Luiz Felipe Leprevost tem consciência do risco de suas escolhas. 

(texto publicado originalmente no site Homo Literatus)