5 de novembro de 2013

Por que ler Lúcio Cardoso

Talvez a primeira razão seja pelo prazer da descoberta de um autor. De alguma forma, toda minha formação literária (sempre contínua) é um movimento de descoberta de autores, uma curiosidade que segue referência atrás de referência, citações, aspas e epígrafes como se fossem pistas para algo que, felizmente, nunca encontrarei.

Portanto, começo dizendo que ler a obra de Lúcio Cardoso será muito provavelmente a descoberta de um novo autor. Afinal, apesar do reconhecimento, Lúcio não teve (tem) a reverberação que merece. Não é para menos: imediatamente anterior aos mais comentados escritores da literatura brasileira, Lúcio Cardoso viveu com¹ e, de certa forma, antecedeu autores como Clarice Lispector, Guimarães Rosa e outras figuras desse naipe. Ou seja, por mais incrível que seja, por exemplo, Crônica da Casa Assassinada (1959), a competição nesse ambiente é desigual. Muito embora utilize o termo “competição” não sentido de disputa, mas de contemporaneidade, o resultado acaba sendo o mesmo: infelizmente, poucos conhecem Lúcio Cardoso.

Nesse sentido, acredito ser importante rastrear a produção de Lúcio Cardoso para entendê-lo no ambiente literário brasileiro. Pouco anterior à verve intimista que até hoje comemora os escritores que citei acima, Lúcio Cardoso iniciou sua carreira literária em 1934 com o romance Maleita, fortemente influenciado pelo regionalismo que marcava o contexto da época. No entanto, percebe-se em sua obra um movimento que se volta progressivamente ao psicológico dos personagens, isto é, rumo a uma vertente mais intimista, preocupada menos com o contexto social que com os dramas individuais. Assim, a tendência observada na obra de Lúcio Cardoso é marcada, sobretudo, pela introspecção que busca dar conta de desamparos e desesperos dos personagens. Não há psicologismos, entretanto. Afinal, esses personagens internalizam e expressam os dramas sociais nos quais vivem. Uma espécie de marco desse movimento é o romance A Luz do Subsolo, publicado ainda na década de 30 (1936).

A trajetória até o seu último e mais emblemático romance, Crônica da Casa Assassinada (1959), é marcado por uma produção prolífera e diversificada, na qual Lúcio dedicou-se à poesia, teatro, cinema, traduções e diários – sem contar as artes plásticas, às quais se dedicou depois do derrame cerebral em 1962, que o impossibilitou de escrever. Eis, portanto, uma ótima razão para ler a obra de Lúcio Cardoso: é possível acompanhar um movimento bastante recente e marcante da literatura brasileira, que culmina nos autores que até hoje influenciam a produção literária.

Além disso, numa chave menos cerebral, existe o prazer de descobrir um novo autor: eu sei que você ao menos já leu A Hora da Estrela e já teve nas mãos um volume de Grande Sertão: Veredas. Eu sei que você sabe quem é Clarice Lispector e Guimarães Rosa, ainda que não passem de fotos em preto e branco do livro de história da literatura do colégio, ou aqueles fulanos que escreveram livros sobre comer baratas ou um moleque que ganha um óculos e começa a ver o mundo. Mas a notícia é a seguinte: muita coisa foi produzida nesse mesmo período e, infelizmente, o livro de história da literatura do colégio e as fotos em preto e branco não abarcam toda essa produção. Portanto, cabe a você (dedo apontando para a sua cara) correr atrás disso². Por que ler Lúcio Cardoso? Porque você tem de descobrir esse autor. Não é uma questão de convencimento, mas de necessidade: você precisa descobrir esse autor.

Para dar conta de toda produção ficcional de Lúcio seria preciso um espaço mais amplo. Por isso, quero me dedicar rapidamente a seu último romance, o já citado Crônica da Casa Assassinada. Por marcar o ápice de sua produção, esse livro consegue expor o processo que comentei, pois seus personagens vivem dramas tão pessoais que acabam representando o drama de um contexto social específico: a derrocada da elite latifundiária mineira. Ou seja, os personagens abandonam a situação de “figurantes” de certa situação social para viverem pessoalmente – e assim representarem – os descaminhos do contexto social em que vivem, encenando conflitos, impasses e irresoluções.

Cabe ainda dizer que Crônica da Casa Assassinada é um livro que merece toda atenção também pela questão formal & lírica. Disse anteriormente que, admirador que sou das aventuras formais do Faulkner (inevitável comparação), foi irresistível quando me deparei com o monumento polifônico que é Crônica da Casa Assassinada. Não há novidade alguma em arquiteturas polifônicas (né, Lobo Antunes?), mas, para mim, um dos grandes diferenciais da obra de Lúcio Cardoso é impregnar cada voz com um timbre diferente, uma poesia específica. Cada perspectiva da história dos Meneses, montada numa espécie de caleidoscópio da degeneração e agonia por meio dos personagens e suas histórias particulares que compõem a história daquela família, cada uma dessas perspectivas possuem seu lirismo característico, desde a voz altamente poética de André até os depoimentos trucados de Valdo Meneses – só para citar alguns dos 17 personagens que compõem a história. Por que ler Crônica da Casa Assassinada? Porque não só há invenção e conteúdo – o livro é de uma poesia diversificada e violentamente encantadora.

É possível reparar ainda que cada capítulo, na verdade cada frase, palavra, cada detalhe foi pensado e repensado e escrito e reescrito. O que impressiona é a liberdade lírica somada ao cuidado formal do Lúcio Cardoso nesse livro. Destaco, assim, a capacidade de estruturação e articulação de enredo, que é multifacetado para dar conta de uma ruína que encontra metáfora na fazenda dos Meneses justamente para expor a ruína não apenas de uma família, mas de um momento histórico. Ou seja, a escolha polifônica tem uma função central à história que conta, articulando forma e conteúdo de maneira que se iluminem mutuamente.

Por fim, minha recomendação da obra de Lúcio Cardoso, principalmente desse livro, é direcionada a quem escreve. Uma expressão antiquada e sacal, mas muito verdadeira ainda assim: ler Crônica da Casa Assassinada é uma aula de como se escrever um romance. Iniciante que sou nesse processo, leio e releio esse livro, pois ele oferece uma lista imensa de recursos narrativos, formais e poéticos para quem quer se arriscar nessa história de escrever histórias. É preciso ter recursos narrativos, formais e poéticos para se escrever alguma coisa? Sabe-se lá, acredito que sim. De qualquer forma, se você quiser partir desses elementos, recomendo fortemente uma análise de estruturação de enredos e linhas dramáticas, a construção de narrativas dependentes articuladas em diversas formas (relatos, diários, cartas, confissões etc.) e como essas escolhas convergem à complexificação dos personagens a que se referem e o lirismo particular de cada voz, que se utiliza de um arcabouço lexical que erige um ambiente próprio que caracteriza cada personagem.

Enfim, por mais argumentos que exponha e independentemente das palavras pomposas que escolha, a constatação é óbvia e recomendação inevitável: a obra de Lúcio Cardoso representa um momento marcante da literatura contemporânea brasileira. Portanto, se ainda não leu, leia; se já leu, releia.

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¹ Sobre o Lúcio Cardoso propriamente dito, recomendo a leitura do recém-lançado Diários, organizado pelo Ésio Macedo Ribeiro e editado pela Civilização Brasileira.

² Importante: pense sobre isso e comece escavações independentes e inconsequentes em busca daquilo que ficou e sistematicamente fica de fora dos livros da escola, das fotografias, das matérias das revistas, das notícias de televisão etc.

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Texto originalmente publicado no Amálgama