14 de novembro de 2013



"Jekyll possuía mais do que um interesse de pai; Hyde tinha mais do que uma indiferença de filho. Lançar-me a meu destino com Jekyll era morrer para aqueles apetites aos quais eu por tanto tempo havia secretamente me entregado e nos últimos tempos começara a alimentar em excesso. Escolher Hyde seria morrer para milhares de interesses e aspirações e tornar-me, de um só golpe e para sempre, desprezado e sem amigos. A troca poderia parecer desigual, mas havia ainda outra consideração na balança, pois, enquanto Jekyll sofreria dolorosamente no fogo da abstinência, Hyde nem sequer teria consciência de tudo o que perderia. Por mais estranha que fosse a minha situação, os termos dessa discussão são tão antigos e comuns como o homem; praticamente os mesmos estímulos e apreensões determinam a sorte de qualquer pecador hesitante diante de uma tentação; e aconteceu comigo, como acontece com a grande maioria dos meus companheiros, que escolhi a melhor parte, e me encontrei sem forças suficientes para manter minha escolha.

Sim, preferi o velho e desgostoso médico, cercado de amigos e alimentando esperanças honestas; e dei um adeus decidido à liberdade, à relativa juventude, ao andar ligeiro, à vitalidade e aos prazeres secretos que havia desfrutado no disfarce de Hyde. Fiz essa escolha talvez com alguma ressalva inconsciente, pois nunca abri mão da casa no Soho nem destruí as roupas de Edward Hyde, que ainda se encontram em meu gabinete. Por dois meses, entretanto, mantive-me fiel à minha determinação; por dois meses levei uma vida austera como nunca e desfrutei as compensações de uma consciência tranquila. Mas então o tempo começou a atenuar o vigor de minhas apreensões; as louvações da consciência começaram a se tornar corriqueiras; comecei a me torturar com agonias e anseios, como se Hyde lutasse por liberdade; e, por fim, numa hora de fraqueza moral, mais uma vez preparei e bebi a poção transformadora."

                                          (O estranho caso de Dr. Jekyll e Mr. Hyde, Robert Louis Stevenson)