6 de novembro de 2013

Entrevista de Al Berto à revista Ler, 1989

e ao anoitecer adquires nome de ilha ou de vulcão
deixas viver sobre a pele uma criança de lume
e na fria lava da noite ensinas ao corpo
a paciência o amor o abandono das palavras
o silêncio
e a difícil arte da melancolia

*

Al Berto é um nome indispensável na poesia portuguesa contemporânea. Publicou recentemente Lunário, ficção (na Contexto). E fala da noite, da vida das gerações, da paixão.

Alberto Pidwell Tavares nasceu há mais ou menos quarenta anos, o que não tem muita importância para o facto de o conhecermos por Al Berto – nome do autor que em 1988 recebeu o prémio do PEN Clube de poesia pelo conjunto da sua obra, publicada sob o título de O Medo (Contexto Editora). E nome, também, do autor de uma vasta obra poética onde encontramos títulos como À Procura do Vento num Jardim de Agosto (1977), Meu Fruto de Morder, Todas as Horas (1980), Trabalhos do Olhar (1982), Três Cartas da Memória das Índias (1985), Salsugem (1985) ou esse notável e belíssimo livro que é Uma Existência de Papel (1985), entre outros muitos textos publicados ou inéditos, em português ou em francês. Viveu fora do país entre 1967 e 1976. Por ele passam as referências de uma geração (e é tão estranho falar de geração a propósito de Al Berto) que não encontra neste reino as suas referências ou as usas circunstâncias. Eterna e crepuscular meditação sobre a amizade (de que nos falam alguns dos poemas de Uma Existência em Papel: «eis o retrato do meu único amigo / a quem tudo revelo / o que me cresceu no coração» ou a tentação de «nomear-te / para recomeçarmos juntos a vida toda»), sobre o desaparecimento, a fuga, a pureza, a impureza, o excesso e o ser tão rara e simples a vida, a obra de Al Berto confronta-se, também, com os lugares de um caminho por onde passam referências à Beat Generation, ao que resta de algumas das tradições dos anos sessenta, a um vago lugar mediterrânico onde existe a voz do conforto e da limpidez de tudo.

Polémica, controversa, a sua figura de escritor é agora chama à autoria de Lunário, sua primeira experiência no domínio da ficção, ou do romance, que também o leva a sair de Sines, onde habitualmente vive.

Vamos começar por uma espécie de banalidade: este é um romance ou um texto sobre o desaparecimento ou a perda. De valores, de sentidos, de pessoas…

– A ideia da perda é uma ideia vaga, que nos dá a certeza de estarmos vivos. Vamos criando uma memória, ao longo disto tudo, deste caminho. Ora, a memória é a prova dessa perda. Que é o que é a vida.

A vida é só perda?

– Não, claro que não é. Tanto não é, que as personagens do livro têm relações entre eles e com pessoas de fora do seu grupo. Nem eu próprio sei se é só perda. Se calhar é. Há uma coisa neste livro que, depois de o reler, me chamou a atenção: é que a memória deles, que os leva à nostalgia, a uma certa nostalgia sem arrependimento, é uma memória da mesma coisa, de um mesmo personagem…

Como a imagem de um pai?

– Provavelmente sim, mas sinto que tudo aquilo, todos os personagens, a sua vida nocturna e a saudade de uma vida onde não existe noite mas só manhãs claras, cheias de sol, de mar, de orvalho, são desdobramentos meus naquelas figuras. Como se eu fosse quase todos os personagens. A ideia é que toda aquela gente teve experiências (droga, sexo, álcool, de um lado, e aquele maravilhamento infantil ou adolescente, do outro lado) que eu próprio tive.

É um romance autobiográfico?

– Em parte, é. A primeira referência, para qualquer coisa que se escreve, é sempre uma referência autobiográfica. A Fernanda Botelho já o disse, de outra maneira, talvez melhor. Outra das razões reside no facto de que só foi possível escrevê-lo muitos anos depois de tudo ter acontecido, porque há coisas que nunca interiorizamos senão muitos anos depois. É a minha memória dos anos que vão entre 1967 e 1976. Regresso agora desses anos. Estou sentado, vejo com os olhos fechados o que se passou na altura.

Mas não é outra coisa completamente diferente da poesia que conhecemos até agora…

– Pois não. Creio que os sintomas disto já estão na forma como aparece O Medo.

Mas de outro ângulo…

– Sim. Mais directo e menos despojado. É evidente que só se escreve um livro, que esse livro inicial (inicial no sentido de profundo) se prolonga para quase sempre.

Mas há diferenças entre a poesia e a prosa…

– Entre a minha poesia e a minha prosa, talvez não haja. Os dois primeiros livros estão muito ligados à prosa. Sempre escrevi uma poesia muito narrativa. Pelo menos dizem isso. Como sou um tipo excessivo e maximal, os meus poemas andam à volta de histórias e é óbvio que não sinto que Lunário seja um romance. Um romance-romance. Essa referência nem aparece no livro.

O que é um romance?

– É aquilo que o autor quiser que seja. O Herberto Helder tem razão quando diz que está tudo misturado: não se sabe quando é que a poesia não dá origem a um romance, quando é que um ensaio não é um romance, quando é que no interior de um ensaio não aparece um poema… Não vejo por que é que essas coisas hão-de ser catalogadas. Há páginas de grandes romances que são grandes páginas de poesia. Bom, mas isto é mais um pressentimento que uma certeza, que o início de uma teoria… É uma interrogação. O meu problema é que sempre li mais prosa que poesia. Na verdade, a poesia aborrece-me mais. Não é bem isso… é no sentido de que ocupa um espaço muito menor nas minhas leituras. A poesia é assim: abro um livro, leio este poema, leio aquele, depois arrumo, um dia volto…

Há uma certa marca disso no fascínio, por exemplo, por Tahar Ben Jelloun…

– Sim, sim… Porque o Tahar Ben Jelloun é um caso curioso, sobretudo o de La Reclusion Solitaire, é curiosíssimo, com aquela luz mediterrânica.

Mas há mais referências na prosa, claro…

– Muitas. Durante anos li Virgílio, sobretudo as Géorgicas, A minha ligação à terra e à natureza é feita assim. Pelo Virgílio. Mas, se me mandassem escolher os meus livros, não saberia ao certo o que levar comigo para a eternidade. Claro que o Malcolm Lowry. O Lowry de Debaixo do Vulcão. Bataille, Genet (todo), Loti (O Pescador da Islândia), Rimbaud, Baudelaire, R. L. Stevenson. Claro que o Melville. O Moby Dick, de Melville. É o meu livro de cabeceira. E Faulkner. Cada vez tenho mais prazer em ler Faulkner. E Herberto Helder, Cesariny, algumas coisas de Eugénio de Andrade, à mistura com Sinais de Fogo de Jorge de Sena, com esse grande livro que é o Mau Tempo no Canal, de Vitorino Nemésio. E, sem dúvida absolutamente nenhuma, o Para Sempre de Vergílio Ferreira. Depois… Duras e Marguerite Yourcenar.

Quando está em Sines e quando está em Lisboa? Por que razão se divide entre Sines e Lisboa?

– A noite tem a ver com o Genet. A fuga, com Rimbaud. O lado místico com Bataille. Sade, com o imprevisto. O lado excessivo (as drogas, o álcool, embora esteja muito calmo desde há dez anos…), com Baudelaire. Um dia vou para um convento. Visto um hábito branco, muito branco, e entro para um convento. Vai ser o meu futuro: para um convento que tenha uma escola de canto gregoriano…

Mas como é a sua vida em Sines?

– Estou em Sines e sinto-me bem. E estou lá, também, porque não tenho outro sítio nenhum para ir. Cheguei a um ponto da minha vida em que não há sítio no mundo para onde se possa ir viver e ser feliz. Sines é um lugar onde tenho conforto, onde me protejo, onde ninguém me aborrece, onde posso ter uma vida diferente, sem ser autor… Sou pelo profissionalismo do escritor e da edição… mas preciso de recarregar baterias, de me proteger do mundo, também. E, lá, nada me interrompe a vida. Mas tanto se me dava viver em Sines como no deserto.

Mas como é essa vida de Sines?

– Surpreendente e super-pacata. Não é nada do outro mundo. Tenho hábitos normais, ponho os pés junto da lareira, trabalho no Centro Cultural. Gosto de dançar (é a minha única ginástica), saio, bebo, ando por lá…

E Lisboa?

– Em Lisboa é terrível. O telefone não para de tocar, janto fora muitas vezes, a noite é cheia de «pecado» (há em todo o lado, mas em Sines é muito mais discreto). Lisboa é a inquietação, e, como já não tenho pruridos, perco-me sempre. E isso vai ao encontro do tema do livro.

Lisboa é o lugar do livro?

– Talvez. São cenas de amizade, de limpidez. E outras de estúrdia, de excesso. E isso tem a sua beleza. Uma espécie de beleza maldita.

São essas cenas, essa dualidade, que fazem a memória do autor de Lunário? De que é que se lembra, sobre a vida?

– Lembro-me de uma cena de caça, com o meu pai, de como ele estava vestido (um pouco antes de ele morrer), lembro-me de ver como apontou a arma, de como o pato caiu. Lembro-me da primeira vez que me chamaram maricas – foi a minha avó. Lembro-me de Barcelona, de estar num quarto e de, de repente, se abrir uma janela e de um rosto espreitar lá para dentro. Há muitas coisas que eu lembro, algumas quero perdê-las, outras conservo-as. Como uma vez em que eu estava muito apaixonado por um rapazinho que vendia cigarros na feira de Málaga e não conseguia vender nada… então eu fui ter com ele, descalcei-me e fui eu pela feira fora, a vender cigarros, com o tabuleiro de madeira.

É necessário o lado sórdido das coisas?

– Pode distinguir-se o que é muito belo, depois.

Mas é necessário?

– Para mim é. Não quero dizer que o seja para as outras pessoas.

Mas magoa, a sordidez?

– Claro que magoa. É óbvio que magoa. Só magoa. E, se calhar, tudo isso é inútil, a sordidez. Se calhar, essas experiências são completamente inúteis. Mas, será que nos resta muito depois disto tudo, destes dias assim, deste não-futuro que a gente vive?...

Provavelmente também há outras vias…

– Bom, tudo seria mais fácil se eu tivesse um curso, um motorista a conduzir o meu carro, e usasse gravatas sempre. Às vezes uso, mas é diferente usar uma gravata no pescoço e usá-la na cabeça. Tudo aconteceu a partir do momento em que eu perdi a noção dos valores. Todos os valores se me gastaram, mesmo à minha frente. O dinheiro gasta-se, o corpo gasta-se. A memória. Por isso é que no Lunário não há lugar para a criação de uma nova moral.

Atrai, essa vertigem?

– Sim. Não me atrai ser banqueiro, ter dinheiro. Há pessoas diferentes. Atrai-me o outro lado da vida, o outro lado do mar, alguma coisa perfeita, um dia que tenha uma manhã com muito orvalho, restos de geada… De resto, não tenho grandes projectos. Acho que o planeta está perdido e que, provavelmente, a hipótese de António José Saraiva está certa: é melhor que isto se estrague mais um bocadinho, para ver se as pessoas têm mais tempo para olhar para os outros.

Mas há perigos. Perigos graves, penso eu. Perigos de morrer. A mim, pessoalmente, desagrada-me a ideia de morrer já…

– Claro que tudo isto é perigoso. Mas as pessoas aproveitam-se disso para serem pérfidas. A questão da SIDA, por exemplo, quando se procura moralizar a questão. Para quê moralizar o problema – só porque é uma epidemia incurável com origem no sexo?

Mas não há um problema moral na SIDA?

– É capaz de haver. Quem apanhar SIDA está estragado, claro. E de hepatite, de cancro, de atropelamento? Ninguém está a tirar o peso ao problema. Mas não moralizem. Não criem novos leprosos. Em vez de se avisar as pessoas, começaram a condenar grupos particulares, com o desejo de regressar aos bons costumes… As campanhas são mal feitas, quase terríveis. Espero que, se isso me acontecer alguma vez, eu tenha a coragem de desaparecer definitivamente. Como a Marilyn…

Bom, mas a propósito do Lunário, se quisermos, não podemos pôr de parte o facto de existir uma moral do sexo.

– Claro que há uma moral do sexo. Ou volta a haver. O facto de as pessoas terem a possibilidade de escolherem um parceiro sexual implica uma moral? Agora, mantêm-se com um apenas, e têm medo, mesmo assim… Que andámos a fazer durante anos? Eu trabalhei bem para isso (risos). Nunca fiz militância sexual, e acho isso deplorável, andar a defender causas sexuais. Não tem sentido nenhum, porque, por mim, nunca percebi bem as distinções todas que se fazem. Sou um homossexual que se sente mais homossexual que alguns heterossexuais a sentirem-se heterossexuais… Mas isso não tem sentido nenhum…

O que é que tem sentido?

– Não quero dizer isso… Quero é dizer que isso, sozinho, não tem sentido nenhum. Há outras coisas.

Claro que há. Há o medo das coisas. Que importância tem o medo?

– Não se pode viver sem medo. Há duas formas de conceber isso: o medo que nos faz estar de pé atrás, e o medo interior, que tem a ver com a escrita. Tenho medo de escrever. Cada vez mais, aliás. O acto de escrita passa por uma coisa assim, desse tipo, medo. Uma pergunta que aparece sempre: «o que é que lá vais pôr, na folha?»

Isso tem a ver com o lado religioso da escrita?

– Eu acho que isso está ligado com a descida aos infernos. Fui educado num colégio católico e acreditei nisso tudo durante muito tempo. De repente, por motivos vários, ou apenas um, não sei… passou a ser tudo falso. Perde-se Deus e é como se fosse o princípio do fim. Abre-se um buraco muito grande, tudo o que estava programado deixa de existir, de ter sentido. Tudo é posto em causa. O que é que se pode fazer a seguir para encontrar Deus? Descer aos infernos. Fazer o percurso ao contrário…

É essa, de certo modo, a perda de que falávamos há pouco e que aparece no Lunário, sobretudo na forma como termina o livro, daquela forma reconciliada e feliz, terna. A imagem de um cardo que sobreviveu à geada, do azul do lírio… É isso que se perde, essa imagem que está no final do Lunário? E que também aparece como uma recordação, quando surge aquela frase que é mais ou menos assim: «devo ter visto o mar quando ele era criança, por isso lembro-me dele»…

– Tem a ver com isso, claro. E tem a ver com o redimensionar todas as questões que colocamos sobre a vida e o seu sentido. Qual é a nossa relação com isto tudo? É preciso repensar a nossa vida. Repensar a cafeteira do café, de que nos servimos de manhã, e repensar uma grande parte do nosso lugar no universo. Talvez isso tenha a ver com a posição do escritor, que é uma posição universal, no lugar de Deus, acima da condição humana, a nomear as coisas para que elas existam. Para que elas possam existir… Isto tem a ver com o poeta, sobretudo, que é um demiurgo. Ou tem esse lado. Numa forma simples, essa maneira de redimensionar o mundo passa por um aspecto muito profundo, que não tem nada a ver com aquilo que existe à flor da pele. Tem a ver com uma experiência radical do mundo.

Que experiência?


– Por exemplo, com aquela que eu faço de vez em quando, que é passar três dias como se fosse cego. Por mais atento que se seja, há sempre coisas que nos escapam e que só podemos conhecer de outra maneira, através dos outros sentidos, que estão menos treinados… Reconhecer a casa através de outros sentidos, como o tacto, por exemplo. Isso é outra dimensão, dá outra profundidade. E a casa é sempre o centro e o sentido do mundo. A partir daí, da casa, percebe-se tudo. Tudo. O mundo todo.

(texto retirado de O Funcionário Cansado)