9 de outubro de 2013

"Drummond, poeta querido

Muito obrigada pelas boas coisas que me disse. Tenho sempre muita saudade de você e espero sempre que um dia a gente possa conversar longamente de corpo presente. Como seria bom! Tantas coisas se fizeram dentro de mim, tantas se diluíram e tantas morreram. Cresci e mastiguei minhas raízes como era preciso. Tenho procurado tanto, Carlos. O que escrevo sempre me parece pequeno, pretensioso e inútil. Mas continuo. E continuo também a amar as gentes, a acreditar como se tivesse nascido logo agora, neste instante. Ou como se estivesse para morrer porque acredito que na morte é mais fácil amar e perdoar. Alguns bons amigos que tenho repetem sempre que tenho uma debilidade anormal porque quero bem até aqueles que não amam e que esse amor em mim é pretensa humildade. No fundo, dizem eles, vontade de parecer melhor que os outros, bondade maldosa.

Será isso, não sei. Li um homem que me impressionou como nunca: o grego Nikos Kazantzakis. Você conhece? O seu livro “Lettres au Grecco” fez com que muitas coisas se iluminassem, fiquei tomada de vida, de esperança e de amor. Foi incrível a luta, a fé e o caminho desse homem. Seus deuses, Cristo, Buda, Lênin, são todos um só uma grande harmonia, uma grande chama. O anjo, ele diz, nada mais é do que um demônio enriquecido e a mais torturada das criaturas de Deus é Lúcifer. E se você perguntar quem é o filho pródigo pelo qual o pai mata um belo e gordo carneiro, ele dirá, Lúcifer! Ah, Carlos, o homem é de arrepiar os cabelos e tudo mais. E o mais maravilhoso: Ele é poeta dos mais altos. Ainda não consegui o livro de poemas, mas dizem por aí que é a mais bela poesia acontecida.

Carlos, escreva para mim. Sei que você é ocupado, etc, mas é preciso que a gente se fale um pouco, algumas vezes, para matar tanta saudade. Vejo sempre Lígia e com muito amor falamos sempre de você e da sua grande poesia.

O carinho e o abraço
da

Hilda"

(carta de Hilda Hilst a Carlos Drummond de Andrade, 10 de agosto de 1962)