23 de agosto de 2013

Keeponrockin’

A edição deste ano ocorrerá em 30 e 31 de agosto, no estacionamento do Estádio Nacional Mané Garrincha

Realizado anual e ininterruptamente desde 1998, o Porão do Rock está consolidado entre os mais importantes festivais independentes de rock do País. E não sem razão. Foram mais de 360 artistas nesses 14 anos numa matemática importante: se por um lado as apresentações internacionais (com nomes de peso) contabilizam 29 artistas e as bandas de fora do DF marcam 150, o PdR tem o mérito de abrir espaço à cena local ao ter colocado em seus palcos até o momento 189 bandas de Brasília e Entorno.

Confirmado para 30 e 31 de agosto no estacionamento do Estádio Nacional Mané Garrincha, o PdR Festival 2013 manterá a estrutura dos últimos anos: três palcos receberão as 38 bandas convidadas deste ano. E não apenas a estrutura será mantida, mas também a diversidade de artistas. Suicidal Tendencies, Soulfly, Mark Lanegan, The Mono Men são os destaques internacionais entre uma multiplicidade de artistas nacionais, que abrange desde os velhos de guerra do Rock-BR dos anos oitenta até os novíssimos nomes.

Gringa…

Os destaques das atrações internacionais são três nomes que remontam aos Estados Unidos da década de 1990 – Mark Lanegan, The Mono Men e Suicidal Tendencies.
Mark Lanegan (ex-vocalista do Screaming Trees) e The Mono Men estão geneticamente vinculados ao que ficou conhecido pelas camisas de flanela xadrez, pelo jeans puído e pelo All Star batido: o grunge. No entanto, tal como todas as outras bandas que foram classificadas pelos ímpetos taxinômicos da mídia especializada, Mark Lanegan e The Mono Men têm pouco em comum. Se o primeiro procura atualmente ambientes mais sombrios e por vezes arrastados em suas músicas muito em decorrência do timbre de sua voz (vide Blues Funeral, de 2012), The Mono Men percorre caminhos mais just-do-it de guitarras distorcidas e bateria acelerada, mantendo a sujeira que de certa forma marcou o som de Seattle circa 1990.

O terceiro nome da tríade norte-americana é o Suicidal Tendencies, que, depois da participação tumultuada na virada cultural de SP no ano passado (tumulto é tema recorrente na biografia dessa banda), lançou neste ano o álbum 13. A apresentação no PdR é parte de uma turnê latino-americana para divulgação desse novo trabalho. Estão certos shows na Colômbia, no Chile e aqui no Brasil (além de BSB, a banda tocará ainda no RJ, em SP, em BH e em Curitiba).

…pero no mucho

Completando as atrações internacionais deste ano estão o Soulfly e a Banda de la Muerte. O Soulfly é velho conhecido do público brasileiro, pois nos vocais está ninguém menos do que Max Cavalera – antológico (e insuperável) vocalista do Sepultura (banda que, aliás, esteve no PdR 2012 e na seletiva Planaltina deste ano). Desde que rompeu com sua antiga banda, em 1997, Max comanda o Soulfly, que tem na bagagem oito discos. Enslavedo é o mais recente, lançado em 2012.

Representando o som pesado da América Latina, a Banda de la Muerte trará debaixo do braço o disco Pulso de una Mente Maldita (2012) e nas mãos uma pegada sólida e acachapante (vide a canção Las Imágenes que Ves entre las Nubes, por exemplo), que vale a pena ouvir.

Dos 80 aos novíssimos

Mas serão dois dias de festival e, apesar do destaque, as atrações internacionais são parte pequena da programação. Tal como faz desde a 1ª edição, o PdR Festival busca diversificar os artistas que compõem o lineup. E uma rápida olhada pela programação deste ano é o suficiente para ver que o esforço é abarcar um público bastante heterogêneo.

Capital Inicial, Paralamas do Sucesso e Lobão tocarão para o público fiel do Rock-BR – que em grande medida foi parido em Brasília ou por bandas brasilienses.

Apesar de estarem trabalhando em novidades, o último disco de inéditas dos Paralamas é Brasil Afora, de 2009. Capital Inicial e Lobão soltaram material novo há pouco: em 2012, Lobão lançou Lobão Elétrico: Lino, Sexy & Brutal, um apanhado mais ou menos repaginado de sua carreira, e no mesmo ano saiuSaturno, disco de inéditas do Capital Inicial. Entretanto, desconfio que os três seguirão mais ou menos a mesma linha: algumas músicas novas mescladas entre seus clássicos já mais que conhecidos. Para quem já viu, mais do mesmo; para quem não viu, também.

Representando as décadas seguintes estão Alf, Dead Fish e Leela. Muito ativos no final da década de 1990 (sobretudo após a explosão das bandas que marcaram essa década – Raimundos, Planet Hemp, Patu Fu etc.) e nos anos 2000, talvez sejam eles os heróis da resistência. Com o som mais melódico e já uma tanto datado, Dead Fish e Leela provavelmente agradarão ao público que andou de skate ouvindo CPM 22 e afins. Alf (ex-Rumbora, ex-Supergalo, ex-Raimundos, ex-Câmbio Negro, um dos fundadores do PdR e figurinha carimbada no festival) tem apresentado músicas consistentes: é o que fica da audição de O Sol Saiu e Pra Onda Boa me Levar (sentiu também a pegada stoner rock do QoSA?), que estarão no seu primeiro trabalho solo, em fase de finalização.

Por fim, nessa linha cronológica que estabeleci, estão os novíssimos Kita, Rocca Vegas, Uh La La, Sexy Fi e Supercombo (que não é tão novo assim). Esses são os artistas que exigirão dos mais conservadores alguma paciência, pois a concepção guitarra-pesada-pedal-duplo cede lugar a algumas eletronices e batidinhas de pés em vez do headbanging. Destaque para o Sexy Fi, grupo brasiliense que em 2012 lançou o trabalho Nunca Te Vi de Boa e chamou a atenção não apenas do público, mas da crítica nacional e internacional especializada (talvez mais da crítica que do público).

Quebradeira

Como não poderia faltar – afinal estamos falando do Porão do Rock –, a galeria adeus-tímpanos do PdR deste ano mais uma vez é composta majoritariamente por artistas de Brasília e do Entorno. Primando por um som mais pesado, os classificados nas quatro seletivas deste ano (em Taguatinga, em Luziânia, no Plano Piloto e em Planaltina, com a participação de 35 bandas) e que se apresentarão nos dois dias do festival são: Falls of Silence, Prisão Civil, Saurios, Penteando Macaco, The Egoraptors, Cadibóde e Dualid. Considerando ainda que serão encabeçados pelo Matanza (countrycorefoda), Krisiun (The Great Execution) e Devotos (o centenário porém não mais dócil trio do Recife), a pancada é certa e garantida – e violenta.

Se conselho fosse bom (talvez não fizesse diferença nenhuma)

Dois dias, três palcos, 38 atrações. Nesse contexto sedutor, há uma limitação física em jogo: é humanamente impossível acompanhar 100% do PdR pois é humanamente impossível estar em mais de um lugar ao mesmo tempo. Ou seja, por mais que exista tentativa de encaixe entre as apresentações (sobretudo entre os palcos Uniceub e BRB), grande parte das atrações do palco nomeado Budweiser são simultâneas aos outros dois palcos. Assim sendo, sugere-se calma & álcool, pois escolhas se fazem necessárias.

Em geral, todos os nomes internacionais são bacanas. No entanto, talvez The Mono Men valha a pena dar uma olhada, assim como o Mark Lanegan e a Banda de la Muerte. Entre as atrações nacionais, muito embora eu preveja narizes torcidos, os novíssimos merecem atenção, uma vez que não custa nada ver o que andam aprontando com o bom e velho rock’n’roll. A quebradeira fica ao gosto do espectador, mas vale a pena registrar que, segundo consta, os shows do Matanza costumam ser inesquecíveis.

É aquela coisa: se conselho fosse bom, talvez não fizesse diferença nenhuma. Ainda mais quando se trata de música, pois gosto é gosto e não se discute. Então, para além de todas as referências e constatações, sugestões e conselhos, o PdR Festival está aí para ser curtido. Portanto, mybrotherfromanothermother, curtamos.

(Texto originalmente publicado na revista Meiaum)