29 de julho de 2013

Outros Ventos

Uma das coisas que ainda me impressiona em Brasília é a quantidade de bons músicos que existe neste lugar. No entanto, diferentemente da geração 80, que seguia à risca a cartilha punk e pós-punk inglesa, os músicos aos quais me refiro estão atentos a outras referências, sobretudo às possibilidades abertas ao violão pela bossa nova carioca ou do Clube da Esquina mineiro.

Não é difícil perceber essas influências em Outros Ventos, trabalho de estreia do duo brasiliense Paulo Ohana e Gabriel Preusse. Lançado no último fim de semana em três shows no ETCA, a dupla apresentou as dez músicas que compõem o álbum. Informação importante: apesar de ainda não disponibilizado no formato físico, o álbum está inteiramente disponível para download.

Sim, recomendo fortemente o download, pois o clima intimista e descontraído do disco (resultante do cuidado da produção e da execução inspirada e primorosa) é um dos principais aspectos que destaco desse trabalho. Não costumo usar tantos adjetivos, mas não me ocorre outra saída – Outros Ventos é realmente cativante.

Com a formação básica de violão e contrabaixo acústico, o disco conta ainda com as participações de Iara Ungarelli (viola de gamba e voz), Pedro Vasconcellos (cavaco), Felipe Viegas (piano e rhodes), Arnaud Devos (marimba, piano, guitarras, berimbau e percussões), Gustavo Koberstein (fagote), Stanislav Schulz (trompa), Westonny Rodrigues (flugelhorn), Davi Abreu (pífano) e Guto Martins (percussões). Essas participações possibilitaram combinações interessantes que não caíram em exercícios áridos ou hermetismos e renderam bons resultados. Cada música constrói um ambiente próprio, mas, ao final, tem-se um disco conciso, pertinente e muito (muito) agradável.

Alternando-se nas composições (seis faixas são assinadas pela dupla) e nos vocais, Paulo Ohana e Gabriel Preusse conseguiram alguns achados nesse trabalho. Transitando entre momentos delicados (Outros Ventos, Tororó, Valsa noire e Cadente), inusitados (O Louco, Estrada Natal e Guarda Chuva/Altiplano e Pra lavar a alma) e sombrios (Um tempo e Infância), muito me agradaram a melodia e a instrumentação de Outros Ventos, a construção de vozes e momentos de O Louco, a delicadeza de Tororó e por fim Pra lavar a alma, um samba que tem base percussiva no contrabaixo de Gabriel e funciona como uma espécie de epílogo ao disco, pois nela estão a experimentação, o despojo (sem relaxo) e o otimismo, marca inegável de Outros Ventos.