2 de julho de 2013

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"– O que se passa com o miúdo?
passa-se que células podres do intestino a invadirem-no destruindo os pulmões, os ossos, o fígado e crianças vestidas de serafim com asas mal coladas nas costas, que terrível e cómica a morte, troça de ti mesmo, despreza-te, no livro de História as datas do nascimento e da agonia dos reis que não lhe faziam diferença por não serem as dele, o bispo fechou as pálpebras de D. João II e D. João II
– Ainda não
os bisavós do álbum
– Ainda não
também, o de bigode, o careca, aquele fardado de coronel com medalhas, mal virava uma página
– Ainda não
desbotado que recusava ouvir, o coração desequilibrou-se sem que desse conta porque as bochechas molhadas, quando o boi castanho morreu tiveram de quebrar-lhe os tornozelos para caber na cova, as pálpebras do boi apesar de cobertas de varejeiras

– Ainda não"

(Sôbolos rios que vão, António Lobo Antunes)