20 de junho de 2013

Contra o delírio

É verdade que todo mundo só fala sobre as manifestações que estão se alastrando pelo país – e isso muito me agrade, diga-se de passagem, pois nem mesmo o futebol está conseguindo competir atenção – e, portanto, sinto que uma opinião a mais não faria muita diferença. Entretanto, justamente por tratar-se de uma série de eventos que tem por pauta uma pauta ampla, creio que uma opinião a mais somaria. Caso seja apenas uma ilusão participativa, ao menos me ajuda organizar algumas ideias.

Meu primeiro pensamento sobre as movimentações que estão acontecendo pelo Brasil, principalmente a manifestação de segunda-feira (17 de junho), colocava-se como uma questão: para que mesmo são feitas essas manifestações? Contra quem/o que? Apoiando quem/o que? Afinal, os R$ 0,20 centavos de aumento da tarifa dos transportes públicos foram apenas gatilho, tenhamos certo. Dessa forma, minha opinião tendia a julgar a pauta dessas movimentações muito difusa – se é que pauta havia.

Mas depois de procurar uma causa ou várias, tentando hipóteses para explicações, concluí que talvez a coisa seja tão simples quando parece: as pessoas estão de saco cheio. Eu estou de saco cheio. E é difícil resumir numa pauta de demandas a insatisfação geral para com a coisa toda.

Que coisa toda?

Em termos muito gerais, creio que a sensação limite é: quem governa parece desconhecer – finge desconhecer, esquecer e, em última instância, repudiar – a função do Estado. Há uma crise de representatividade na qual a demanda do público está em segunda ordem na organização de prioridades, ficando atrás das obrigações políticas, a troca de favores e apoios, que são barganhados pelas tais “bancadas”.

Que tipo de articulação histórico-política foi necessária para que o presidente da Comissão dos Direitos Humanos e Minorias, que tem dentre suas atribuições constitucionais e regimentais “avaliar e investigar denúncias de violações de direitos humanos”, que tipo de loucura possibilitou que a presidência dessa comissão fosse assumida pelo o pastor Marco Feliciano? (Que, aliás, ontem mesmo aprovou – entre brados de ameaça às articulações políticas da bancada evangélica para as eleições do próximo ano – o Projeto de Decreto Legislativo 234/2011, a chamada ‘cura gay’.)

Não tenho a menor ideia. 

O problema é que a mesma lógica – talvez outras mais estapafúrdias – estendeu-se desvairadamente: vencedor do prêmio Motosserra de Ouro do Greenpeace em 2005, o senador Blario Maggi assumiu a presidência da Comissão de Meio Ambiente, Fiscalização e Controle; José Genuíno assumiu a presidência da Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania da Câmara; Renan Calheiros assumiu a presidência do Senado – e isso só para citar alguns.

Não por acaso, portanto, as inquietações e desejos de mudanças frente ao estado patológico de desmando e incoerência são tão difíceis – senão impossíveis – de serem expressas numa frase ou numa reivindicação. Entretanto, não acho difícil compreender o que está acontecendo. Essas manifestações explicitam que as coisas não são bem assim, essas manifestações são contra o delírio que está se tornando palavra de ordem, modus operandi dos governos  pois não é apenas do atual governo – na maquinaria estatal.

Ou seja, nesse contexto insano, faz sentido que se acumule uma lista imensa de insatisfações (a corrupção, a impunidade, a PEC 37, o sucateamento da saúde e da educação, o gasto espetacular com a Copa do Mundo e a Olimpíada etc e tal). E faz sentido também que o resultado de tanto desmando seja manifestações colossais que levaram mais de um milhão de pessoas às ruas do país.  

Não sou filiado a nenhum partido, admito ter grave problema com qualquer tipo de agremiação – sou inclusive muito mais adepto de esportes individuais que coletivos, uma disputa de tênis me cativa mais que uma partida de futebol. Entretanto, neste momento de euforia – que euforia dura para sempre? – meu medo é tudo acabar com a eleição do Aécio no próximo ano. Se assim for, creio que conseguiremos, num curto espaço de tempo, curar todos os homossexuais brasileiros, dizimar os indígenas que atrapalham o desenvolvimento do país e (se existem mesmo uns mais iguais que os outros, afinal) conquistaremos a supressão da garantia de voto para mulheres e negros e de outras garantias que custaram caro.

Transformações políticas não acontecem da noite para o dia – o tempo histórico é outro. Acredito que esse movimento tem por maior mérito levantar o debate: se ainda não está claro que mudanças fazer e como fazê-las, é importante discuti-las, pois a necessidade de reforma é urgente. Não me refiro ao impeachment da presidente ou qualquer outra mera dança de cadeiras. Considero válido questionarmos o funcionamento mesmo do mecanismo: o pluripartidarismo é eficaz? A promiscuidade partidária não deveria ser contida? Deveriam ser mais rígidas as normativas relativas às tais coligações partidárias? 

Ou o que?

Ademais, política é feita nas ruas, mas também nas eleições. Não adianta muito coordenar manifestações como as que acontecem hoje e depois não agir com coerência e seriedade. Portanto, que fique dito: voto de protesto de cu é rola.