7 de março de 2013

Livros, autores


Há certos livros e autores que acertam tão em cheio que a sensação ao lê-los nos expondo nus é de vergonha, como exige essa nudez que explicita falhas, fraquezas, medos. Certos livros e autores que, expondo-se nus, obrigam-nos a vermos nós mesmos também nus e acuados, constrangidos ao termos à mostra isto que, afinal, somos e não queremos ser, momentos que passamos e não aceitamos passar. Assim me vejo:

"O poço é escuro, a princípio. Depois vai clareando. À medida que você vai entrando, o poço vai clareando. Entrando. Clareando. Que porcaria. Que grande porcaria outra vez. Vou mergulhar no poço. Sabem como entre no poço? Entro assim: as minhas duas mãos se agarram nas paredes rugosas, esperem, comecei errado, é assim que eu entro no poço: primeiro, sento-me na borda, abro os braços, não, não, vou entrando, raspando os cotovelos nas bordas, meu Deus, esse jeito é muito difícil entrar, acho que devo entrar de outro jeito no poço. Devo realmente entrar no poço? Ou quero entrar no poço para justificar as coisas escuras que devo dizer? O que você quer, meu velho Ruiska? Umas coisas da carne, uns azedumes, impudores, ai, uma vontade enorme de limpar o mundo. Quero limpar o mundo das gentes que me incomodam. Quem? Os velhos como eu, os loucos como eu".
 (Fluxo-floema, Hilda Hilst)


Que fazer quando se insiste até a loucura entrar no poço e, antes de tudo, nem se sabe ao certo se entrar no poço é o que deve ser feito? E se entrar no poço é tão-somente uma forma (enviesada, eufemística) de matar aquilo que sou justamente por não ser o que queria ser?

Há certo livros e autores que nos colocam as piores questões de formas tão cruas que não há nada a se fazer senão parar um pouco, respirar um pouco e continuar.