20 de novembro de 2012

Os cigarros das mulheres de Caio

“Sabia que eu até vezenquando tenho mais de pena de você e desses arrepiadinhos de preto do que de mim e daqueles meus amigos fodidos? A gente teve uma hora que parecia que ia dar certo. Ia dar, ia dar. Sabe quando vai dar? Pra vocês, nem isso. A gente teve a ilusão, mas vocês chegaram depois que mataram a ilusão da gente. Tava tudo morto quando você nasceu, boy, e eu já era puta velha” (trecho do conto Dama da noite)
Depois de temporadas em SP e RJ, esteve em Brasília a peça Mulheres de Caio. Baseada nos contos O príncipe sapo, Creme de alface, Os sobreviventes e Dama da noite, a peça foi adaptada e dirigida por Delson Antunes e contou com as atrizes Bruna Spinola, Carol Fazu, Larissa Sarmento, Linn Jardim, Patrícia Elizardo, Paula Guimarães e Rhavine Chrispin.

Mulheres no limbo entre ilusões e desilusões são os personagens centrais dos quatro contos, que têm como tema comum a ruína de ideais e vontades, o amargor e a falta de perspectiva, explicitados em relações truncadas e mal-sucedidas. É por meio dessas relações afetivas sempre incompletas e complicadas que um quadro maior é desvendado: para além de questionamentos femininos, vê-se uma geração desfeita tentando se encontrar em seus resquícios, desencantada com um mundo sem esperança. De certa forma, aliás, esse quadro marca toda produção do escritor gaúcho.

Mulheres de Caio entrelaça os quatro contos conseguindo uma unidade narrativa que merece nota. Os contos foram divididos em dois pares. No primeiro ato, por assim dizer, há uma imbricação entre O príncipe sapo e Creme de alface; Os sobreviventes e Dama da noite formam o segundo ato. Tal escolha faz sentido no universo construído por esses contos: se no primeiro par observa-se o movimento mesmo da queda, isto é, a junção de fatos e circunstâncias que levam à desilusão, o segundo par debruça-se sobre a conseqüente angústia da descrença, deixando entrever por vezes uma esperança amarga.

A coesão narrativa da peça provém das relações estabelecidas entre as mulheres desses contos e as situações que vivem, muito mais por uma questão temática que narrativa. No entanto, mesmo a questão narrativa está bem resolvida no espetáculo, uma vez que as histórias não são apresentadas de maneira estanque, mas entremeadas, constituindo assim um jogo de reflexos que acentua os temas comuns (reforçados, inclusive, por trechos de outros contos de Caio, como Para uma avenca partindo).

A peça também é cenicamente muito bem elaborada. A movimentação de palco ocupa de forma criativa o espaço e os elementos de cena são utilizados de maneira interessante. Além disso, o jogo de vozes narrativas denuncia o entrosamento das atrizes, que se apropriaram cada uma a sua maneira daquelas personagens sem que isso prejudique o desenvolvimento narrativo. Por isso, a alternância delas como personagem principal apenas soma ao espetáculo uma qualidade lúdica, que tangencia os contadores de histórias infantis.

E, afinal, que cigarros são esses? O que tem os cigarros dessas mulheres de Caio?

Na segunda parte da peça, quando apresentado o conto Dama da noite, as atrizes forjam uma bebedeira coletiva para criarem a situação do conto, a tal Dama da noite num diálogo-monólogo com um jovem. Todas elas têm um cigarro nas mãos, que nunca são acessos em cena. Esses cigarros apagados expõem a chave da peça, que é a opção por uma leitura humorada dos contos de Caio Fernando Abreu. Tal escolha é plausível, pois os textos do autor de fato apresentam um viés de humor em sacadas inteligentes que, afinal, causam riso. No entanto, em grande medida, o mecanismo de Caio em seus contos é conquistar o leitor com passagens leves para logo em seguida acertá-lo em cheio com uma pancada de desilusão. Esta passagem de Os Sobreviventes exemplifica o ponto:
“Já li tudo, cara, já tentei macrobiótica psicanálise drogas acupuntura suicídio ioga dança natação cooper astrologia patins marxismo candomblé boate gay ecologia, sobrou só esse nó no peito, agora o que faço?”
Trabalhar os temas que perpassam os contos escolhidos (solidão, desesperança, medo etc) sem abrir (muito) espaço ao lado sombrio dos textos de Caio é uma escolha válida que demonstra a amplitude da obra do escritor, que transita entre tantos estilos e possibilidades. Entretanto, em alguns momentos a singeleza e o humor reverberam demais, tirando a força mesmo da história que está sendo contada. O desfecho agressivo de Creme de alface e a angústia de Dama da noite se perdem em meio aos trejeitos exagerados que claramente objetivam o riso da platéia.

Por fim, depois da curtíssima temporada em Brasília, que foi parte do projeto Ocupação da Funarte, resta saber quando a peça voltará em cartaz. É aquela história: quem viver verá.


A peça
Texto: Caio Fernando Abreu
Adaptação e direção: Delson Antunes.
Atrizes: Bruna Spinola, Carol Fazu, Larissa Sarmento, Linn Jardim, Patrícia Elizardo, Paula Guimarães e Rhavine Chrispin

Os contos
O príncipe sapo (in: Ovelhas Negras, 1995)
Creme de alface (in: Ovelhas Negras, 1995)
Os sobreviventes (in: Morangos mofados, 1982)
Dama da noite (in: Os dragões não conhecem o paraíso, 1988)

O Caio