20 de outubro de 2012

Depois da queda


Escrita por Arthur Miller e agora traduzida e dirigida por Felipe Vidal, Depois da queda é uma peça em parte baseada na tumultuada relação entre Arthur Miller e Marilyn Monroe, na qual o autor apresenta em feixes de memória fatos marcantes da vida de Quentin (alter ego de Miller).

Ao se aproximar para uma rápida história, Quentin é assaltado por passagens de sua vida: a infância, a relação dos pais, a morte da mãe, o primeiro casamento, o conflito entre amigos comunistas numa América Macartista e o desenrolar de seu com Maggie (Monroe). Assim, o que se percebe é o personagem num intenso e profundo exercício de se compreender no mundo. E, nesse itinerário quase onírico, ele se depara, revive e analise tais passagens de sua vida, buscando nelas explicações ou pistas para uma espécie de autoconhecimento.

As mulheres são ponto de partida nessa busca de Quentin. Desde a relação com a mãe, passando por amantes esporádicas, a relação complicada com sua primeira esposa e o casamento com Maggie, Quentin acredita que as principais pistas de quem é serão encontradas nos relacionamentos que estabeleceu, sejam eles rápidos e insignificantes ou intensos e, portanto, significativos. Na verdade, ao revivê-los e observá-lo agora como um espectador, Quentin encontra justificativas, admite falcatruas e falsidades para, em última instância, compreender as razões que o levou a se comportar como fez naquelas situações.

É fato que a peça se debruça principalmente sobre o casamento de Quentin e Maggie, isto é Miller e Monroe --- "a união do cérebro com o corpo da América", como disse Normal Mailer. Num arco que abarca o primeiro contato entre eles até a última noite do casal, Maggie é apresenta como uma mulher insegura, carente e, ao final, vítima agonizante de seus caprichos e traumas. Desta forma, a relação do casal embrenha-se numa dinâmica obscura de obsessões, dependências e conflitos.


No entanto, Depois da Queda não é uma peça sobre Marilyn Monroe. Antes, é um exercício de sinceridade em busca de respostas que teve como estopim Marilyn Monroe: sua morte anunciada, sua morte acontecida e, acima de tudo, o papel de Arthur Miller no relacionamento, que presumidamente colocaram ao dramaturgo as mesmas questões de Gullar no Poema Sujo: que faço entre as coisas? de que me defendo?

Vencedor dos prêmios Pulitzer, Tony e Círculo de Críticos de Teatro de Nova Iorque com Morte de um Caixeiro Viajante, autor de As Bruxas de Salém, Panorama Visto da Ponte e outras peças que o consagraram como um dos maiores dramaturgos do século XX, em Depois da Queda vemos Arthur Miller num acerto de contas com o passado na tentativa de seguir adiante.