30 de abril de 2012

No exílio


“Então? O que é que está errado? Trabalhar muito numa profissão idealista; praticar esportes sem fanatismo nem violência, entre pessoas semelhantes, com muitas risadas; e perdão e amor familiares. O que havia de errado em acredita em tudo isso? O que aconteceu com o bom senso que eu tinha aos nove, dez, onze anos de idade? Como foi que me transformei nesse terrível inimigo de mim mesmo que sou agora? E tão sozinho! Ah, tão sozinho! Só tenho a mim! Estou trancado dentro de mim! É, sou obrigado a perguntar a mim mesmo (no momento em que o avião me carrega – segundo imagino – para longe da pessoa que me atormenta), que fim levaram meus ideais, aquelas metas decentes e dignas? Lar? Não tenho. Família? Também não! Coisas que podiam ser minhas, era só eu estalar os dedos... então por que não estalo os dedos e toco para frente com a minha vida? Não, em vez de pôr meus filhos em suas caminhas e me deitar ao lado de uma esposa fiel (a quem também sou fiel), levei para cama, em duas noites diferentes – para uma suruba, como dizem nos puteiros –, uma putinha italiana gorda e uma modelo americana, analfabeta e desequilibrada. E eu nem acho tanta graça nisso, porra! Então o que é que você quer?”

(O complexo de Portnoy, Philip Roth)