6 de janeiro de 2012

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"Nepomuceno tinha um olha quase compassivo, quando prosseguiu: -- Por toda parte, a presença da morte. Que medo, meu Deus. Quanto horror! E, no entanto, é preciso aprender a dizer o nome da morte. Vencer o ódio, absolutamente. Porque odiar dói demais. Se eu merecer, que Deus me dê a graça de morrer emocionado diante da vida. Comovido com a despedida. Inteiramente encantado com a luminosidade do adeus. Não, não quero ser um personagem de Thomas Mann. Quero morrer sem desolação, lançando ao mundo um último olhar de encantamento, talvez de compaixão. Porque é tão frágil, o mundo. -- Levantou a mão direita, um pouco em resignação, um pouco em saudação, quem sabe. E com esse meio gesto no ar, concluiu: -- Só assim a gente aprende a dizer o nome da morte..."

(Ana em Veneza, João Silvério Trevisan)