30 de janeiro de 2011

Resenha sentimental #4


Nesta cidade que é cimento não há ritmo ou invenção, mas motores compondo uma harmonia desajeitada, um improviso de acaso, humores e rumores de máquinas lentíssimas se arrastando, grotescos metais que arrotam em monóxido de carbono a música (a música?) desorganizada em tons e não-tons e atons e assim por diante até se perderem nas minúsculas caixas de som do meu laptop que byte a byte tentam reproduzir cítaras de Ravi Shankar & George Harrison entoando mantras em centenas de cordas para ninar o ocaso dos seres que habitam a improvável arquitetura desta mesa, finas lâminas de madeira estruturando (em pregos e puxadores) gavetas: a mitológica assombração do passado a salvo num retângulo, um mundo à parte do qual me esquivo e me evado – entretanto, nesta cidade que é cimento, nesta mesa que é madeira, o tempo convoca.

(Ravi Shankar & George Harrison)