10 de novembro de 2010

Resenha sentimental #1


As mãos de Joanna Newsom são aranhas tecendo sons numa designação ancestral que não se questiona a lógica, mas se resume ao verbo nu e por isso não há de se duvidar que não existam partituras (i.e. imagens que planificam o movimento e a vibração que não existem no papel);

As mãos de Joanna Newsom têm fiandeiras que compõem as cordas afiadíssimas de uma harpa imensa, armadilha fácil para outras mãos (i.e. minhas mãos) que não entendem a matemática sentimental de tantas cordas e por isso raciocinam o movimento de presa;

Os dedos de Joanna Newsom são patas pontiagudas em unhas inventando vibrações (i.e. eu finalmente compreendido e exposto em música) e isto soará exagero, mas em determinados momentos ocorre a transfiguração do desejo ou do exaspero em alguma coisa tangível e Clarice Lispector me olha nos olhos

– vejo que nunca te disse como escuto música

meus olhos nos olhos dela

– apóio de leve a mão na eletrola e a mão vibra espraiando ondas pelo corpo todo: assim ouço a eletricidade da vibração, substrato último no domínio da realidade, e o mundo treme nas minhas mãos

e então nós dois embasbacados com as mãos de Joanna Newsom (i.e. aranhas tecendo mundos) enquanto nossos cigarros no cinzeiro provocam a noite.

(Have one on me – Joanna Newsom)