3 de outubro de 2010

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"No gris da água e dos céus nublados, apesar da suavidade daquele inverno; sob o grisado de nuvens matizadas de sépia quando se pintavam, embaixo, sobre as amplas, suaves, arredondadas ondulações - preguiçosas em seus vaivéns sem espuma - que se abriam ou se entremesclavam ao serem devolvidas de uma margem a outra; entre os esfuminhos de aquarela muito lavada que esbatiam o contorno de igrejas e palácios, com uma umidade que se definia em tons de alga sobre as escalinatas e os atracadouros, em chovidos reflexos sobre o ladrilhado das praças, em brumosas manchas postas ao longo das paredes lambidas por pequenas ondas silenciosas; entre evanescências, surdinas, luzes ocres e tristezas de mofo à sombra das pontes abertas sobre a quietute dos canais; ao pé dos ciprestes que eram como árvores apenas esboçadas; entre grisados, opalescências, matizes crepusculares, sanguinas apagadas, vapores de um azul-pastel, tinha estourado o carnaval, o grande carnaval da Epifania, em amarela-laranja e amarelo-tangerina, em amarelo-canário e em verde-rã, em vermelho-romã, vermelho de pintarroxo, vermelho de caixas chinesas, trajes axadrezados em anil, e açafrão, laços e rosetas, listados como pirulito e mastro de barbearia, bicórnios e plumagens, sarabanda de sedas metidas em turbamulta de cetins e faixas, turquices e bugigangas com tal estrépito de címbalos e matracas, de tambores, pandeiros e cornetas, que todas as pombas da cidade, num único vôo que por segundos enegreceu o firmamento, fugiram para margens distantes."

(Alejo Carpentier, Concerto Barroco)