26 de setembro de 2010

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"Eu estava ali à beira do rio, atrás o garoto resmungando sua semântica ensandecida. Fechei os olhos e me vi retornando para minha velha casa, lá atrás da curva do penhasco, e ao chegar enfiei a cabeça entre os braços cruzados sobre a mesa, a esperar o crepitar do celofane desvelando um presente esperado, o guia das horas, um manual que ensina como preencher os minutos sem se aborrecer, com coisas que nos tiram da atualidade para nos levar a um audacioso nomadismo destruidor de qualquer rastro paradeiro fixação ao solo e outras coisas mais. Quando o celofane se abrisse inteiramente, eu, quem sabe, explodisse uma gargalhada e com isso me rejubilasse pelo menos com a tarde redonda, sem transbordamentos, sereníssima: ah, e então correria para sentar na pedra da subida do penhasco, onde me poria a ler o guia das horas - e quando acordasse da leitura com certeza não estaria mais ali nem em outro lugar mas já seria um puro ponto informe, não importa onde, a ejacular sua derradeira gargalhada."

(João Gilberto Noll, Canoas e Marolas)