12 de fevereiro de 2009

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"– Tudo é superficial, meu bem, tudo é epi-dér-mico. Escute, quando ainda era adolescente, eu costumava brigar com as velhas da família, com as irmãs e essas coisas, com todo o lixo genealógico. Sabe por que? Bem, por causa de uma série de disparates, mas principalmente porque essas senhoras achavam que qualquer falecimento ou qualquer perturbação que houvesse em casa ou na rua era muitíssimo mais importante do que uma frente de batalha, um terremoto que liquida dez mil pessoas de uma só vez ou coisa assim. O ser humano é verdadeiramente cretino, mas cretino a um ponto que você nem pode imaginar, Babs, porque, para isso, seria necessário ler toda a obra de Platão, vários padres da igreja, todos os clássicos e, além disso, saber tudo o que se tem de saber, sobre todo o cognoscível, e é exatamente neste momento que alcançamos um cretinismo tão incrível que somos capazes de encontrar a nossa podre mãe analfabeta de manhãzinha e nos aborrecermos porque a boa senhora está muito aflita por causa da morte do ruivo da esquina ou da sobrinha da vizinha do terceiro andar. E a gente lhe fala do terremoto de Bab El Mamdeb ou da ofensiva de Vardar Ingh, e pretende que a infeliz lastime no abstrato a liquidação de três divisões do exército iraniano...


– Take it easy – disse Babs. – Have a drink, sonny, don't be such a murder to me.


– Na realidade, afinal, tudo se reduz desde que os olhos não vejam... que necessidade existe, diga-me, de tornar loucas as pobre velhas com a nossa puritana adolescência de cretinos de merda... Puxa, meu irmão, estou num porre... Vou já para casa."


(Julio Cortázar, O jogo da amarelinha)