4 de novembro de 2008

Foi lá

... no Diversos Afins, na vigésima sexta leva, que saiu o comentário do André de Leones (autor de Hoje está um dia morto e do recém lançado Paz na terra entre os monstros) sobre Beijando Dentes e Linha de Sombra, livro novo da Lúcia Bettencourt (que é autora também de A Secretária de Borges), comentário que reproduzo aqui.


APERITIVO DA PALAVRA (outubro 2008)
Por André de Leones

“Beijando Dentes” (Record), livro de contos de Maurício de Almeida. Eu li e reli e. O que acontece? Se eu tivesse de comentá-lo (talvez eu tenha, não sei) junto ao balcão do Bar da Dona Geni aqui em Sylvannya-Goyaz, ora, o que eu diria? Rascante. Não sei se as narrativas do Maurício são góticas, punks ou coisa parecida. Sei que elas são rascantes. Exemplo (página 9): “Suspendeu os ombros contraídos, afrouxou as panturrilhas e arrastou os pés num desânimo de séculos”. É o tipo de coisa que pega, e nem sempre de imediato. Eu li e reli e achei bom, muito bom, e depois, dias depois, de pé no meio da cozinha (esperando o café ficar pronto), a coisa bateu. E daí eu pensei em Faulkner. Um gosto de terra na boca. Nem é sangue, nem é carne, nem é couro. É terra mesmo. Um desconforto de séculos, não? Aquela velha tristeza ancestral, Maurício. Que acerta a gente de uma vez, bem no meio da nuca. Você sabe, há qualquer coisa de podre no ser humano. A gente, em sendo assim descompensado, escreve a respeito. Maravilhosamente bem, no seu caso.

Daí eu fui até Lúcia Bettencourt e seu “Linha de Sombra” (Record). Ali, uma tristeza algo domesticada, mas nem por isso menos incômoda. Elegante, sim. Tanto Maurício quanto Lúcia exibem um tremendo rigor formal. A diferença entre eles talvez esteja no tom. Lúcia fala baixo, de dentro da gente, a boca cheia de perdas. Maurício fala grosso, voz embargada aqui e ali, a boca cheia de terra. Em ambos, com a licença do senhor Wesley Peres, um inferno inteirinho em cada palavra.