15 de setembro de 2008

E na quinta, dia 11/09

... foi o lançamento de Beijando Dentes em Campinas. Como anunciei por aí, antes do coquetel, o Marco Cremasco e eu falamos um pouco e a Ana fez uma leitura muito legal de Uma Pedra à Mão, último conto do livro.


Marco, eu e Ana

Como imaginei, foi um lançamento bem íntimo, posto que aqui estão meus amigos, familiares e afins. E, por isso mesmo, fiquei mais ansioso/nervoso que o normal. No entanto, correu tudo bem.


Amigos, familiares e afins

Agora é torcer para que leiam o livro. E gostem. E indiquem aos outros, pois livro é o que não falta.

Há pilhas e pilhas por aí

No mais, publico o texto do Marco sobre Beijando Dentes. É uma leitura possível (e muito bacana, por sinal). Segue, então, O Gótico Contemporâneo em Beijando Dentes.




O GÓTICO CONTEMPORÂNEO EM BEIJANDO DENTES

Marco Aurélio Cremasco


Vinho! vinho! Não vês que as taças estão vazias e bebemos o vácuo... ?

Álvares de Azevedo


1.

Durante a segunda metade do século XVIII, ocorreu na Inglaterra uma série de transformações no processo de produção, originando ao que se convenciona denominar Revolução Industrial. Uma decorrência imediata desse movimento, entre outras, foi o êxodo do campo para a cidade, acentuando a diferença entre ambos. Os habitantes das cidades, por sua vez, acabaram consumindo não apenas alimentos, mas uma série de serviços e de produtos da própria indústria. Saliente-se que a Revolução Industrial influenciou o desenvolvimento da ciência moderna quando se vislumbrou a aplicação da ciência aos problemas da indústria... como também a visão da ciência enquanto nova religião, procurando elevar o ser humano à condição divina, como é o caso de “Frankenstein”, de Mary Shelley, concebido na primeira metade do séc. XIX. Trata-se da história de Victor Frankenstein, um estudante de ciências naturais que constrói um monstro em seu castelo. É o típico do romance que alguns autores costumam classificá-lo de romance de terror gótico.


2.

Normalmente associa-se à literatura gótica o horror, castelos, mistérios, associados a sentimentos de tristeza, melancolia, em que os personagens são, via de regra, anti-heróis. Um representante brasileiro que poderia se aproximar de tais elementos é o Álvares de Azevedo em seu livro “Noite na taverna”, escrito entre 1848 e 1851, no qual há componentes macabros, com histórias de amor e de morte, ambientadas em uma atmosfera lúgubre.


3.

Ainda somos visitados por Macário, aquele que se encontrou com Satã na obra de Álvares de Azevedo?, e podemos perceber elementos góticos na literatura brasileira contemporânea? Antes de procurar responder a essa última pergunta, gostaria de resgatar uma passagem de uma entrevista que concedi ao jornal Rascunho (julho de 2007), em que refleti sobre a questão do “contemporâneo”, procurando entendê-lo o que é do tempo atual, acontece ao mesmo tempo e em espaço distinto. Nesse sentido, o mundo nunca foi tão contemporâneo de si mesmo como o é agora, graças à Revolução Midiática em curso, comparada em impacto à Revolução industrial, em que fatos e eventos substanciais que ocorrem em qualquer parte do planeta atinge, on-line, a quase a todos nós. Como exemplo, trago à lembrança o dia 10 de setembro de 2008 em que presenciamos o acionamento de um gigantesco acelerador de partículas, objetivando recriar a “criação”, bem como desvendar o que os cientistas, carinhosamente ou ironicamente, batizaram de “partícula de Deus”. Não se estaria reproduzindo a experiência do jovem Victor Frankenstein? É importante recordar que o www foi criado para propiciar a comunicação entre os partícipes desse artefato “milagroso”. O www nasceu da necessidade da velocidade, da síntese e da objetividade da comunicação e, como conseqüência, refletiu na natureza humana, sendo traduzida em manifestações artísticas, incluindo a Literatura. Vide os blogs transformando-se em romances. Tal contemporaneidade a qual me refiro é assustadoramente recente (menos de vinte anos!), possibilitando-nos diferentes visões, diferentes vozes, levando-nos ao mundo discreto, fragmentado, quais partículas elementares. Desse modo, sou levado a crer que a literatura contemporânea não precisa, necessariamente, abordar o tempo atual, mas trazer elementos atuais como: velocidade, síntese, objetividade, fragmentação e desconstrução formal. Além disso, a literatura contemporânea, frente a essa nova revolução, traduz nossa angústia sobre o imponderável, principalmente no que diz respeito à natureza humana, traduzindo-se no que é de mais obscuro em nossa psiquê. Caro leitor, não percebe que as taças continuam vazias e insistimos beber o vácuo?


4.

O livro Beijando dentes (Editora Record, 2008, 111 páginas; e prêmio Sesc 2007 na categoria contos), de Maurício de Almeida, constitui-se de 13 contos (atentai ao número, Macário!) que ocorrem em dias nublados ou em noites e madrugadas infindáveis de, sobretudo, angústia. Os contos de Beijando dentes possui elementos em comum: família, noite, sexo (gozo/sangue), desvios psicológicos, velhice, morte (aparece em 10 contos) e... dentes (aparece em nove contos). Tais elementos, além de trazer unicidade à obra, fazem com que o livro, como um todo, se formate em um grande monólogo, em que o autor é onisciente, levando-o ao subjetivismo, apesar da preocupação estética quanto à objetividade da escrita. São contos ambientados em atmosferas sombrias, em que os fantasmas aparecem enquanto distorções psicológicas, não precisando de cemitérios e nem de castelos para estabelecer um cenário melancólico que trafega pelo livro. Beijando dentes nos remete para a celebre cena de Hamlet; o Maurício, todavia, não apenas contempla a caveira, mas, literalmente, beija-a; e muito mais, não beija somente os dentes dessa caveira imaginária, mas a própria morte. Beijando dentes, portanto, poderia, em uma percepção gótica, nos moldes do séc. XIX, ser “beijando a morte”; não a morte convencionada, mas aquela que nos definha e nos desafia em nossas relações, por mais que juramos mantê-las eternas. A obra do Maurício é de uma densidade assombrosa em que se busca, alucinadamente, a liberdade das convenções, em particular, dos relacionamentos humanos. Ao se terminar de ler o livro tem-se a sensação de se ter visitado o porão de uma alma humana. Não é, de modo algum, uma leitura confortável.


5.

A busca incessante de liberdade chega ao extremo de romper com a própria forma. Maurício não se utiliza da escrita convencional para seus contos; e os aproxima da dramaturgia. O teatro é marcante na maioria dos contos, em que a presença do personagem e de seus pensamentos misturam-se em cortes abruptos, os quais poderiam denunciar uma lógica fragmentada; contudo, existe a continuidade da leitura, ressaltando que as personas/falas permeiam os interstícios entre as frases, como se os atores deixassem o palco e nesse permanecesse as suas vozes ou vultos, como pode ser observado nos contos Às quatro e meia da manhã; Ao redor da mesa; Cadência.


6.

Esse rompimento estrutural extrapola, em alguns momentos, o espaço real do papel. O conto O silêncio da boca aberta insinua a possibilidade de um incesto; traduzindo o gozo que não pode ser dito, contudo, caso escrito, deve ou deveria ser subentendido pelo leitor. Nesse conto, o cuidado é tanto para que não aflore tal revelação, que esta é interrompida não pelo raciocínio, mas na própria grafia: há cortes de palavras. Aliás, a sexualidade (e não vulgaridade!) está presente em vários contos. No conto Oito e meia há o sangue e gozo compondo a sinonímia de um vampirismo em que não existem dentes, mas agulhas virtuais como em acupuntura a cravarem-se no corpo e no delírio do personagem, do autor e do próprio leitor.


7.

A disposição espacial da escrita, uma preocupação evidente do autor, torna não-linear o fluxo da leitura, impondo, em certos momentos, ritmos poéticos à estrutura textual, como observado no conto Ao redor da mesa. Já no conto Duelo, existe a disposição gráfica de um diálogo em duas colunas. Apesar da separação física, esse conto contém, implícito, o embate entre o ser e o seu oposto: Você não percebe que cada tiro explodirá também pela culatra?, pergunta Maurício a ele-outro. O duelo/diálogo, assim, é um belo monólogo de um suicida.


8.

Sei que você não entende uma vírgula do que digo e não me importo, frase retirada do conto Cadência, o qual se trata dos relacionamentos de um roqueiro cinqüentão ultrapassado, explicita o egoísmo do personagem e mesmo a já citada onisciência do autor. Mas o que chama a atenção nesse conto é ojeriza à velhice, algo que se repete em outros contos. Síndrome de Peter Pan? Dorian Gray, de Oscar Wilde?, em que se processa a velhice em um espelho e se retém a sua face jovem e gélida na realidade. Nesse sentido, Maurício, no conto Madrugada, usa de imagens flácidas, decrépitas para caracterizar o fim de algo; não o fim de uma existência, mas essencialmente a degeneração da carne, da juventude. Ou seja, poderíamos ter: O retrato de Maurício de Almeida, como um subtítulo a essa breve apresentação.


9.

Uma pedra à mão, o conto que finaliza o livro; apresenta-se como uma contraposição formal aos contos anteriores. Existe a dubiedade no título, pois ele pode ser um aviso: o autor não veio com flores, mas com uma pedra na mão, pronta a ser lançada nas convenções mesquinhas que nos aprisionam em nosso dia-a-dia e nos sufocam. Nesse último conto as frases são curtas, quase em soluço. Frases secas, travadas, truncadas; como se acompanhassem a colocação de tijolo a tijolo na construção de uma casa, como está no texto, ou mesmo de um túmulo, como foi a minha leitura subliminar, guardando (ou preservando) delírio, paixão, desespero e, o mais importante, uma literatura de alta qualidade.


Obs.1: Texto lido no lançamento do livro Beijando dentes, de Maurício de Almeida, no auditório do Sesc-Campinas, na noite do dia 11 de setembro de 2008.

Obs.2: As fotos são de Alexandre Toresan.