20 de agosto de 2008

Matéria

Saiu a seguinte matéria, com uma rápida entrevista comigo e com o Sérgio, no Correio Braziliense:

Escritos revelados

Livros vencedores do Prêmio Sesc de Literatura trazem a público a prosa de dois escritores de diferentes gerações, ambos até então inéditos


Nahima Maciel

Correio Brasiliense – 11ago08


Sérgio Guimarães tem 58 anos e há 30 vive a viajar pelos cantos mais pobres do planeta em missões oficiais da Unesco. Maurício de Almeida tem 27, é antropólogo e mora em Campinas. Há um ano, criação literária para Almeida estava confinada ao quarto de casa. E para Guimarães se resumia a um amontoado de transcrições de conversas com amigos angolanos nos anos 1970. No ano passado os dois autores ganharam o Prêmio Sesc de Literatura 2007, um dos poucos no Brasil associado a uma editora e cujo prêmio consiste em publicar o texto inédito selecionado. Almeida e Guimarães foram escolhidos entre 422 inscritos e seus livros ganharam tiragem de quatro mil exemplares pela Editora Record. Fizeram sessão de autógrafos na Festa Literária de Paraty (Flip) e entraram para um sistema que tem projetado autores novos na cena literária brasileira. Em 2005, o escritor André de Leones ganhou o Sesc com Hoje está um dia morto e foi convidado para participar do projeto Amores Expressos, ao lado de Luiz Ruffato e Adriana Lisboa. Em 2006, Wesley Peres levou o prêmio por Casa entre vértebras, indicado para o Portugal Telecom deste ano. Ou seja, é bem provável que o leitor venha a ouvir falar de Maurício de Almeida e Sérgio Guimarães nos próximos anos.


Experimentos formais e relacionamentos

Maurício de Almeida começou a escrever contos entre amigos. A idéia era publicar uma antologia com vários nomes, mas o projeto nunca foi adiante. “Há um tempo atrás mandei um livro para algumas editoras, para ver como eram as cartas dos editores de não aceitação, de rejeição. Fiz essa tentativa até chegar ao prêmio, que deu certo”, conta. Almeida não se intimidou. Continuou a escrever os contos e percebeu que entre eles havia um tema comum. O então estudante de antropologia criava personagens encarcerados na incomunicabilidade, narrava histórias de relacionamentos de gente que não conseguia se comunicar.


Relações amorosas, familiares, de amizade, banais ou não. Veio então o Prêmio Sesc e Almeida deu nome ao conjunto para poder inscrever o livro. Beijando dentes ficou com 13 contos. Para dar ritmo às situações sufocantes, o autor investiu em desconstruções formais. Eliminou os travessões, experimentou a polifonia narrativa e até recursos gráficos, como as duas colunas de texto que permitem colocar lado a lado a descrição de um combate por dois personagens diferentes em Duelo. Às vezes, Almeida acerta no ritmo. Em Às quatro e meia da manhã, um casal fala ao telefone, encena um diálogo de fim de caso enquanto os pensamentos seguem outras direções e ganham mais linhas que as coisas ditas. Agora, o autor ensaia um romance. A falta de comunicação nos relacionamentos é o foco, mas desta vez no ambiente familiar. Enquanto não publica, se concentra no teatro, para o qual escreve peças. Já viu no palco Tansparência da carne, escrita em parceria com um grupo de teatro de Campinas e encenada no Fringe do Festival de Teatro de Curitiba deste ano.


A trajetória de Beijando dentes é tão sofrida quanto a dos personagens que não conseguem se comunicar?

Tive essa sensação de aliviar o computador. A primeira coisa que senti foi o computador ficar vazio por um tempo, e as coisas que ficavam presas aqui só comigo ganharem vida e saírem do meu domínio. Acho muito interessante ver a reação das pessoas ao que eu escrevo. Isso é uma novidade para mim porque até então ficava tudo aqui, num círculo muito restrito de amigos e namorada, que sempre lêem e acabam comentando.


Por que o interesse pela falta de comunicação nos relacionamentos?

Por uma questão bastante pessoal. Sempre tive dificuldade de me relacionar com pessoas, de estranhos a familiares. Isso me chamou muito a atenção, e aí a antropologia também influenciou fortemente, por causa da questão do outro, do eu e do outro, de como funciona essa relação que não é tão clara nem tão fácil assim. Nos três contos iniciais desse projeto, percebi que havia essa temática do diálogo na relação e estruturei todo o projeto do livro nessa proposta, que na verdade é a trajetória de uma tentativa minha de desconstrução do travessão. Tentei desmontar o travessão e, através desse desmanche, tentar entender o que se relacionar, o que tem de interessante, de bom e de violento. Quais são as concessões que fazemos numa relação, seja ela qual for, o que ganhamos e o que perdemos, o quanto brigamos e o quanto temos uma aproximação mais afetuosa.


Essas questões formais da literatura o interessam? O seu texto tem várias experiências, da pontuação à narração polifônica…

Pelo conto ser uma história menor, aproveitei para tentar trabalhar a questão formal. Essas histórias surgiam por N lados, notícias de jornal, coisas que acontecem com você, coisas que você ouve e tal. Tentei trabalhar muito a questão formal de acordo com todo esse projeto, com todo o conteúdo. Usei várias vozes, tentei pegar subjetividades independentes e não usar muito a terceira pessoa. Quando uso, é proposital.


Angola em diálogos

Zé, Mizé, camarada André nasceu há 27 anos com o nome de Notícias de Angola. Sérgio Guimarães trabalhava para a Unesco na formação de professores de escolas primárias, logo após a revolução de independência de Angola. Gravava conversas com conhecidos sobre a situação do país e passava tudo para o papel. Percebeu que o conjunto de transcrições dava um livro e começou a delinear um romance. Criou o personagem Zé, jornalista brasileiro que desembarca em Luanda para acompanhar as guerras pós-coloniais e a revolução dita socialista. Em personagens reais encontrou Mizé, dona Cacilda e o revolucionário André. Alinhavou tudo para criar o romance de 302 páginas, em que Zé explora a história do país por meio de entrevistas com personagens.


Mizé é a mulher angolana que troca idéias com o jornalista estrangeiro e pontua mais da metade do livro. Guimarães optou por excluir o narrador do romance. Construiu o texto em cima dos diálogos. Zé, Mizé, camarada André é a estréia de Guimarães na ficção, mas não na escrita. O autor publicou uma série de livros sobre educação em parceria com Paulo Freire. Agora que adentrou novo terreno, Guimarães acalenta outros projetos, coisas guardadas no computador e espremidas entre um tempo e outro. E a jandaia, o gato comeu , sobre a vida e obra de Guimarães Rosa, ainda está em gestação. Vai nascer quando Sérgio Guimarães, que mora em Honduras, encontrar um tempinho entre as dezenas de missões da Unesco.


Como nasceu Zé, Mizé, camarada André e seus personagens?

A idéia veio da primeira missão que fiz a Luanda, em 1978. Meu traballho, nessa época, foi de apoiar os angolanos, ainda com a pintura da independência fresca, na formação de professores, sobretudo para o ensino primário. Os portugueses tinham saído aos milhares, as crianças entravam nas escolas aos milhões pela primeira vez, e não havia professor que chegasse. Do trato com uma realidade inteiramente nova para mim, e já de uma certa crítica que começava a surgir sobre os percalços de uma revolução que se queria socialista, surgiu o desafio de pôr as coisas no papel. O personagem do jornalista brasileiro Zé Roberto foi invenção minha. Já os angolanos Mizé, dona Cacilda e camarada André têm correspondentes de carne e osso, apenas disfarçados em nomes e maquiagens ficcionais. Quanto ao personagem do menino soldado Manolo, entrevistado pelo jornalista, é real até no nome.


Por que escrever o romance inteiro em forma de diálogos? Praticamente não há narrador...

Comecei gravando as conversas que tinha com os diferentes personagens, e logo me dei conta que a força narrativa vinha justamente dos diálogos em si. Aí resolvi dispensar a figura do narrador, com algumas exceções em que intervenho, sobretudo no início da história. Foi certamente porque os personagens angolanos tinham muito o que contar, incluindo, a partir de suas experiências reais, suas próprias lições aprendidas sobre a guerra e a revolução angolana


A formação da identidade nacional é algo muito forte na literatura angolana e você retoma essa temática. Por quê?

A busca dessa identidade nacional angolana era intensa, pelo menos nesses primeiros anos de independência do país, e suponho que não tenha cessado desde então. O livro apenas flui no sentido de acompanhar o movimento social que se sentia na época. Eram muitos os que buscavam os elementos de uma unidade nacional que se escondiam por debaixo de um contexto de guerra e de divisão, sofridos pelo povo de Angola nesse período.


(http://www2.correioweb.com.br/cbonline/cultura/cadc_mat_47.htm)