19 de julho de 2007

Passada a tempestade

Tem barro e, provavelmente, outra tempestade.

Mas apesar do frio, ontem estreou a peça. Um público legal, sim, muitos amigos, com certeza, e no fim cerveja e pizza para comemorar. Quer mais? Eu não preciso, pois estou satisfeito. Mas segue a matéria da Carlota Cafiero que saiu ontem no Correio Popular, a propósito da estréia:

A violência de cada dia
/TEATRO/ República Cênica estréia hoje o espetáculo Transparência da Carne

Carlota Cafiero
DA AGÊNCIA ANHANGÜERA

Dos navios-negreiros vindos da África para o Brasil até fins do século 19 aos vagões de trem repletos de judeus desviados para os campos de concentração alemães em meados do século passado; das botinas dos soldados do 3 Reich às botinas dos soldados da Polícia Militar subindo os morros cariocas, a violência é sempre a mesma. Espetáculo-mosaico ou caleidoscópico, Transparência da Carne — que o grupo República Cênica estréia hoje em Campinas — trata de maneira delicada e poética da facilidade do ser humano em produzir dor e sofrimento, independentemente da época e do lugar.

Resultado de uma série de oficinas coordenadas pelo grupo e outros colaboradores ao longo do primeiro semestre, o espetáculo é protagonizado pelos intérpretes-criadores Ana Carolina Mundim e Fernando Aleixo, e conta com dramaturgia de João Nunes (editor-assistente do Caderno C) e Maurício de Almeida. Multimídia, mistura vídeo, dança e teatro de sombras para contar sobre os instantes finais da vida de um homem atingido por bala perdida, na rua de uma cidade qualquer. Ao perder muito sangue, o personagem sofre alucinações e faz uma viagem através do tempo e das guerras.

Com cerca de uma hora de duração, o espetáculo traz poucos elementos no palco, como malas de viagem, cordas, botinas e uma lousa, além de uma interessante instalação feita de camisetas brancas revestidas de gesso, que ganham volume, como vestígios dos corpos que abrigaram. Espalhada pelo palco, a instalação ganha sentido nas mãos dos atores, no final do espetáculo, e encerra muito mais que “corpos transparentes”. O figurino concebido por Bukke Reis e confeccionado por Maria Nazaré Mundim é versátil e faz referências sutis às roupas de presos em campos de concentração.

Texto

A dramaturgia criada por João Nunes e Maurício de Almeida mistura o texto narrativo à poesia, provocando imagens na mente do espectador, que “viaja” com os personagens para tantas guerras, declaradas ou não, abordadas no espetáculo. Nunes conta que o grupo iria abordar somente o tema do Holocausto, partindo da peça O Interrogatório, de Peter Weiss, mas quando consultado pelos atores, sugeriu que o texto tratasse também de outros conflitos. Nunes participou ativamente do processo de criação, coordenando inclusive a oficina Roteiro Dramatúrgico: do Tema à Poética Teatral, com intervenções de Lígia Tourinho.

Desenvolvido com apoio do Edital do Fundo de Investimentos Culturais de Campinas (Ficc), da Secretaria Municipal de Cultura (SMC), o espetáculo marca a inauguração da sala multiuso do República Cênica, em sua sede no Taquaral, com duas arquibancadas com capacidade para cerca de 80 pessoas, além de camarim e mesas de som e iluminação. O espaço é resultado de dez anos de investimentos feito pelo grupo formado pela bailarina e atriz Ana Carolina Mundim e pelo ator Fernando Aleixo.


Então, só para lembrar:

Transparência da Carne
De 18 a 22 de julho
Horário: 20hs
Local: Espaço Cultural República Cênica - Rua Américo de Moura, 124 – Taquaral (paralela à Av. Barão de Itapura)
Ingressos: R$10,00 (inteira) e R$5,00 (meia)
Informações: (19) 3295-8503

Ou seja, ainda está em tempo. Dá e sobra, para dizer a verdade.

E segundo a meteorologia não há previsão de tempestades. Apenas frio. Então, pegue o casaco antes de sair.